1° capítulo do livro que será lançado a partir de maio 2008

Capítulo 1 O filme da minha vida começa com a câmera fazendo meu caminho até o mar. Meus passos marcando a areia, a prancha afundando nela e demarcando o território, enquanto me preparo para mergulhar. A câmera corta para o meu equilíbrio nas ondas e os braços abertos, como se o surfe fizesse crescer asas. Em slow motion, deslizo na diagonal e os pingos respingam na tela. A onda me derruba – corte para o caldo que levei e para o meu sorriso, voltando para a praia, plantando novamente a prancha na areia e fazendo um sinal de positivo para a vida.   ’Esse é o Pauê na sua comunhão com a natureza’, diria o locutor. E com razão. Eu encontrei no surfe a minha identidade. Na sensação inigualável de “liberdade misturada com aventura” que toma conta do meu espírito toda vez que subo numa prancha. Ou que me ajoelho nela. Sim, hoje surfar é quase que literalmente uma prece para mim.É a vida que imita o surfe – ou pelo menos a minha. A gente aprende a ficar de pé e aprende a cair. As ondas são os caminhos que trilhamos – ora queremos passar pelo atalho, sob a forma de um delicioso tubo, ora por cima, como um floater, mas sempre descobrimos que cada caminho, ou melhor, que cada onda que percorremos é diferente da outra, e que as vantagens e desvantagens na vida são relativas. Não precisa ser o mais rápido, afinal, a sensação é de estar em câmera lenta. Se eu pudesse, congelaria o prazer de surfar.A prancha é a nossa consciência. Quando bem estruturada, nos conduz pelos caminhos mais tortuosos e se mantém inteira. Às vezes fica arranhada porque ninguém é perfeito mesmo.A cordinha é a segurança, o amigo que não deixa você tomar um caldo fatal. A parafina é sua base forte, que mantém você no chão para que não tropece novamente nos mesmos erros. Ou simplesmente para lembrar que estar por cima, definitivamente, é um estado temporário.

É o surfe que carrega as minhas baterias e, ao mesmo tempo, libera aquela energia ruim que cola na nossa alma: sentimentos de mágoa, o cansaço do dia-a-dia, o saco cheio da rotina.

O mar é paixão à primeira vista na minha vida. E o surfe é mais do que um hobby ou esporte: é meu molde. Foi minha escolha desde pequeno. E minha meta depois dos 18 anos, quando acordei do pior caldo da minha vida.

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Passava das oito horas da noite do dia 8 de junho de 2000. Deixei o nosso apartamento (morava com minha mãe, pai e irmão), em São Vicente, com a mochila recheada do material para a natação. Minutos atrás, na academia, havia combinado com um amigo de darmos um mergulho para nos prepararmos para o final de semana. Esse breve caminho do prédio até a esquina marcaria meus últimos passos feitos de carne e osso.Sempre fui agitado, espiritual e fisicamente. Naquela época, aos 18 anos, ainda mais. Apesar de não me enxergar como um profissional do esporte ainda, eu adorava estar envolvido com atividade física e a qualidade de vida que ela traz.Naquela época, pela manhã, eu fazia cursinho pré-vestibular em Santos (na Rua Conselheiro Nébias, entre os canais 3 e 4) e quase sempre voltava a pé ou de bicicleta para casa. Naquela sexta-feira, voltei mais lentamente do que de costume, sozinho, caminhando pela praia, pensando na vida. Alguma coisa parecia fora da ordem, não sei explicar. Uma energia diferente pairava no ar. O Pauê sempre inquieto era substituído por um Paulo Eduardo reflexivo, como se meu espírito estivesse sendo avisado de que algo estava prestes a acontecer.  É uma sensação que ainda permanece um mistério para mim. E, como veremos mais à frente, este não é o único mistério relacionado à minha vida depois de tudo o que aconteceu.

Antes do cursinho, eu já havia corrido na praia com mais dois amigos. À noite, mais musculação na academia e a decisão de nadar. Se não fosse tão ávido por movimento, eu poderia ter sossegado aquela noite, voltado para casa e me preparado para sair com os amigos. Possivelmente ainda teria minhas duas pernas, você vai pensar. Mas se não fosse tão apaixonado por esporte, eu não seria o Pauê. E nem teria tanta força para me recuperar e alcançar o nível que atingi. Desafio é comigo mesmo. E eu não costumo desistir fácil.


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